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D. Isabel de Bragança

Fotografia de Victor Frond (1858) de uma litografia com dúvida na autoria.
Fotografia de Victor Frond (1858) de uma litografia com dúvida na autoria.

Nascida em 29 de julho de 1846, no Paço da Imperial Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Rio de Janeiro, D. Isabel Christina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Raphaela Gonzaga [de Bragança e Borbone-Sicilie] foi preparada desde os quatro anos de idade, quando morreu seu último irmão homem (varão), a desempenhar as funções inerentes ao alto encargo de princesa imperial, o que vale dizer, segundo os artigos 105, 106, 126 e 128 da Constituição Política do Império do Brasil, que ela seria a futura “imperatriz imperante”, quando morresse seu pai, D. Pedro II.

Três vezes regente do Império (1871-72; 1877-78; 1887-88), D. Isabel mostrou-se administradora conscienciosa e mulher de ação política particularmente voltada aos interesses dos menos favorecidos. Dentre os milhões que este termo abrigava no Brasil do século XIX, sociedade simultaneamente escravocrata e liberal, ela se preocupou particularmente com a sorte dos escravizados — afro-brasileiros ou africanos trazidos da África desde os tempos coloniais.

Não existe exagero em definir D. Isabel como a governante mais católica da história brasileira. Sua fé religiosa profunda, seu acatamento à Doutrina Social da Igreja (DSI) e seu interesse em alterar a sociedade em que vivia fizeram dela uma antagonista perfeita ao reacionarismo do patriarcado brasileiro. Como disseram João Camilo de Oliveira Tôrres ou João de Scantimburgo, as regências isabelinas, titularizadas por uma mulher, possuiriam um “timbre” revolucionário, mesmo que ela não enxergasse assim. João Mauricio Wanderley, o célebre Barão de Cotegipe, chegou certa vez a salientar a D. Isabel que ela deveria se portar “como a Rainha Victoria”, isto é, uma desinfluente no governo; ao que ela retrucou: “_E não é por isso que a criticam tanto?”.
D. Isabel. C. 1874.
Joaquim Insley Pacheco. Albúmen, carte cabinet, 16,5 x10,8 cm.
Arquivo Grão-Pará. Especial cortesia de D. Pedro Carlos de Orleans e Bragança.

A República brasileira que nasceu no golpe militar de 15 de novembro de 1889 parece ter sido bem mais um amontoado de episódios tragicômicos do que uma “evolução” da política e da sociedade brasileiras, ao contrário do que narram livros escolares didáticos e paradidáticos. O maior alvo do republicanismo da década de 1880 foi justamente a futura D. Isabel I, comprometida com boa parte das reformas sociais que os abolicionistas propunham. Gilberto Freyre lembrava que Nabuco, ou Rebouças, ou Patrocinio, não propunham apenas a Abolição, legalmente constituída, mas um conjunto de reformas transabolicionistas, que garantissem a cidadania aos negros.

O índice de rejeição a D. Isabel entre parte das classes dirigentes era alto; não se pode dizer o mesmo em relação às classes populares. Embora o fato de ser mulher engendrasse repulsa no que tange à governação do Império, sobretudo os antigos escravizados se mostraram fiéis ao trono isabelino, que não pôde ser herdado.

Em 05 de dezembro de 1891, D. Pedro II faleceu em Paris, no Hotel Bedford — sem jamais ter renunciado ou abdicado da Coroa brasileira à qual devotou sua vida desde os cinco anos de idade (1831); naquele momento, simultaneamente solene e funéreo, a Princesa Imperial D. Isabel foi reconhecida pelos conselheiros imperiais e demais nobres que a cercavam como “D. Isabel I, Imperatriz do Brasil”, motivo pelo qual nosso Instituto respeita e enaltece esse fato histórico. Nos trinta anos seguintes, ela devotou sua vida de exilada a rezar e trabalhar pela grandeza do Brasil e o conforto dos brasileiros, ainda que em campo de atuação enormemente restrito. D. Isabel foi uma personagem reconhecida pelo seu espírito nobilíssimo na sociedade parisiense de fins do XIX e princípios do XX — Madame la Comtesse d´Eu, como a tratavam os franceses, era a imperatriz do Brasil e todos o sabiam, do presidente da República Francesa ao mais comum dos habitantes da pequena Cidade de Eu, onde o castelo do século XVI abrigava a família imperial banida do território nacional brasileiro. Os depoimentos sobre a corte isabelina no exílio mostram que, como lembrou Assis Chateaubriand, ela pôde “reinar no exílio”, acima dos partidos, das facções, das rinhas. De outro lado, como lembrava o mesmo empresário do jornalismo, sem governar o Império abolido por oficiais do Exército em 1889, ela não pôde fazer quase nada pelos pobres do Brasil.

Em 14 de novembro de 1921, com 75 anos e já mortificada pela perda de dois filhos, a única brasileira que nos governou antes da Presidenta Dilma Rousseff cerrou para sempre seus olhos azuis e voltou à casa do Pai Eterno. Seus restos mortais somente vieram para cá em 1953; repousam, desde maio de 1971, no mausoléu imperial da catedral que ela ergueu: São Pedro de Alcântara, em Petrópolis.

Celebrar, pois, a memória daquela que o povo brasileiro apelidou de “Redentora” — redentora da História do Brasil e não “redentora dos escravizados”, numa visão descontextualizada — é iluminar um passado que insistiram em esquecer e que, no entanto, jamais desapareceu. O passado das lutas entre escravismo e liberalismo, abolicionismos republicano e monárquico, positivismo, socialismo e catolicismo social etc.

A identidade nacional é uma amálgama de sentimentos e sensações, mas também de ideias e ideais. Diariamente, nós revisitamos os “fundadores da nacionalidade” em nossos projetos sociais e políticos e nos alimentamos de esperança para que o futuro de nossos descendentes contenha um mínimo de paz, estabilidade e progresso.

Destarte, cultuar a memória da “Redentora” e de todos os abolicionistas, sem jamais deixar de fomentar pesquisa histórica sobre suas vidas e obras constitui, em nosso alvitre, descortinar um Brasil que clama pelo conhecimento.

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira
Setembro de 2021
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