Detalhe da Missa Campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil, Campo de São Cristóvão, 17 de maio de 1888. Rio de Janeiro, RJ. Fotografia de Antonio Luiz Ferreira, Prata/gelatina. Coleção Príncipe D. João Henrique de Orleans-e-Bragança/Instituto Moreira Salles. ANTUNES DE CERQUEIRA, Bruno da Silva; ARGON, Maria de Fátima Moraes. Alegrias e Tristezas. Estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil. São Paulo: Linotipo Digital e IDII, 2019, caderno de imagens, illus. 24.1.
Detalhe da Missa Campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil, Campo de São Cristóvão, 17 de maio de 1888. Rio de Janeiro, RJ. Fotografia de Antonio Luiz Ferreira, Prata/gelatina. Coleção Príncipe D. João Henrique de Orleans-e-Bragança/Instituto Moreira Salles. ANTUNES DE CERQUEIRA, Bruno da Silva; ARGON, Maria de Fátima Moraes. Alegrias e Tristezas. Estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil. São Paulo: Linotipo Digital e IDII, 2019, caderno de imagens, illus. 24.1.

O IDII, sigla pela qual é conhecido o Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora, é uma organização não governamental voltada para educação, cultura, valorização da civilização brasileira e da liberdade cidadã e preservação da memória dos grandes vultos da transição entre o Oitocentos e o Novecentos, em especial de D. Isabel e de todos os abolicionistas, homens e mulheres.

O Instituto foi fundado em 13 de maio de 2001, no salão nobre da Imperial Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos do Rio de Janeiro.

Votação da Lei Áurea na Câmara dos Senhores Deputados. Fotografia de Antonio Luiz Ferreira, constante do álbum “A Abolição no Brazil” e presenteado a D. Isabel em 1888. O álbum pertence aos descendentes de D. Thereza Maria Theodora de Orleans e Bragança e Dobrensky (1919-2011), última neta isabelina, e, no Brasil, foi publicado no livro denominado “Coleção Princesa Isabel”, de Pedro COrrêa do Lago (2008 e 2013).

O IDII considera que o desconhecimento de História do Brasil prejudica fortemente o desenvolvimento do espírito de cidadania e de autoestima em grande parte do nosso povo, o que contribui para a manutenção de várias das deturpações sociais e políticas do país. Nosso objetivo maior é apoiar a pesquisa e disseminar conhecimentos bem fundamentados de História e Cultura brasileiras, junto ao público jovem e adulto, de todas as classes sociais, atuando em parceria com outras entidades do Terceiro Setor. A natureza jurídica do IDII é de uma associação civil sem fins lucrativos, podendo ser definida como uma instituição para-acadêmica — um think-tank.

O Gabinete da Abolição, ou “Gabinete 10 de Março”, ou “Gabinete João Alfredo”. Trata-se da montagem tradicional que os jornais da época faziam para mostrar a nova composição ministerial. Imagem de domínio público.

Resgatar os diversos movimentos abolicionistas do Brasil e retomá-los, simbólica e politicamente, é nossa função precípua. A esse movimento denominamos neoabolicionismo. O neoabolicionismo é uma espécie de “psicanálise da Nação Brasileira”, como o definimos em evento acadêmico organizado no Memorial Vargas, bairro da Glória, Rio de Janeiro, em 2005.

Embora concentre suas atividades na revificação da memória dos abolicionismos e dos abolicionistas, o IDII objetiva muito mais. Cremos que o estudo e o ensino da História do Brasil aos brasileiros seja um fator de desenvolvimento socioeconômico e político. Todos os nossos projetos culturais, portanto, giram em torno da Educação, alicerce real de qualquer desenvolvimento sustentável.

E por que homenagear D. Isabel de Bragança (1846-1921), a popular “Princesa Isabel”? O engenheiro Pandiá Calógeras (1870-1934), célebre político e historiador carioca, disse certa vez que não existe no Brasil maior injustiçado(a) histórico(a) do que D. Isabel. O IDII não somente acredita nisso como entabula que o Brasil do Terceiro Reinado que não veio poderia ter sido a grande fase de sedimentação nacional, algo que a obra da República Velha — ou Primeira República (1889-1930) — impediu.

Há um futuro no passado que é necessário descortinar. Porque André Rebouças (1838-1898), Joaquim Nabuco (1849-1910), Affonso Celso Júnior (1860-1938), Rodolpho Dantas (1854-1901), Alfredo de Taunay (1843-1899) e tantos outros abolicionistas fiéis à Monarquia não puderam governar nosso país como ministros e conselheiros de Estado — Nabuco, A.C. Jr., Dantas e Taunay foram deputados no Império, mas com a República nunca mais voltariam, sequer, ao Legislativo — a obra abolicionista não pôde ser realizada. Bem assim Machado de Assis (1839-1908), Eduardo Prado (1860-1901), Carlos de Laet (1847-1927) e outros próceres das letras nunca se constituíram em autoridades governamentais, canalizando suas energias na literatura, no engajamento cultural institucional e no jornalismo, mas sempre distantes do Governo da República.

A reforma agrária anunciada na Fala do Trono de maio de 1889 foi completamente renegada e impedida pela República que se instalou com a quartelada de 15 de novembro. Bem ao contrário, foi com a promessa de indenização aos antigos senhores de escravos pela Abolição que o novo regime ganhou milhares de adeptos na “lavoura”, como então se dizia.

Nabuco proclamou: “A República é a desforra e a vingança dos despeitados!”. Rebouças, a bordo do Alagoas que levava para o exílio D. Pedro II e D. Isabel, vaticinou: “Acabou-se a civilização brasileira!”. A carga negativa do berço de nossa República é inegável; talvez por isso seja dificílima sua republicanização. Um dos autores que mais estuda essa transição, da perspectiva dos descaminhos da cidadania, é o Professor José Murilo de Carvalho (UFRJ, IHGB e ABL). A República, no caso brasileiro, nasceu militarista, revanchista, machista e, também, embora pouco se diga, racista. Sabe-se, por exemplo, que o Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), timorato e sempre declaradamente monarquista, somente aderiu ao golpe, na hora final, após acreditar em mentiras de alguns republicanos; entre elas constava a de que a “Guarda Negra da Redemptora” estava a caminho da Escola Militar da Praia Vermelha, para espancar os cadetes insuflados de positivismo e republicanismo por homens como Benjamin Constant Botelho de Magalhães (1833-1891), por exemplo. Tudo que envolve a passagem da Monarquia para a República no Brasil é extremamente simbólico e deve ser estudado de forma profunda e continuada, contrariamente ao que se faz na maior parte das faculdades de História em nosso país.

Importante ressaltar que o IDII não é nem quer ser um movimento monarquista brasileiro, ainda que saiba reconhecer a importância fundamental que tem em nossa História o legado do Império (1822-1889). Também não somos uma agremiação católica ou religiosa de qualquer matriz. O instituto cultural que leva o nome da mais católica de nossos governantes não é, ipso facto, partidário da (re-)união da Igreja com o Estado, mesmo porque somos hoje um país plurirreligioso, onde o laicismo da sociedade civil tem crescido.

A Frente Negra Brasileira, fundada em setembro de 1931, em São Paulo, tendo por líder maior o Professor Arlindo José da Veiga Cabral dos Santos (1902-1978), filósofo católico e isabelista intemerato. O movimento passou a se denominar “órgão político e social da raça negra” e obteve apoio de milhares de adeptos e inscritos, tornando-se uma agremiação político-partidária, que o golpe do Estado Novo (1937) acabou por dissolver.

Nosso quadro social congrega monarquistas e republicanistas — e os monarquistas republicanos, já que no léxico nabuquiano a fórmula é possível —, católicos e protestantes, budistas e ateus. Não nos consta que haja judeus e muçulmanos, mas eles seriam extremamente bem-vindos!

O IDII é uma organização de cultura brasileira, o que significa dizer que ele carrega a marca de mais de 500 anos de história do Brasil-Colônia, do Brasil-Império e do Brasil-República. Defendemos, praticamos e enaltecemos as heranças multiétnicas herdadas de nossos antepassados, o que nos impede de repelir qualquer tipo de manifestação cultural e artística.

Por outro lado, é muito perscrutável que os membros do IDII partilham um sentimento patriótico e fraternalista no qual predominam elementos da ética cristã. O cristianismo, através da catequese da Igreja Católica, e depois do século XIX, através das missões protestantes, foi o principal sistema filosófico-religioso da História do Brasil. Entre erros e acertos, pecaminosidade e santificação, as três máximas virtudes teologais (Fé, Esperança e Caridade) pregadas pelos clérigos e pelas organizações religiosas de leigos — mormente as irmandades, confrarias etc. —, guiaram os comportamentos e iluminaram os caminhos de milhões e milhões de brasileiros no passado. Não é errado enxergar, portanto, que o IDII se alimenta desse legado na busca de propostas para o Brasil de hoje.

Por outro lado, é muito perscrutável que os membros do IDII partilham um sentimento patriótico e fraternalista no qual predominam elementos da ética cristã. O cristianismo, através da catequese da Igreja Católica, e depois do século XIX, através das missões protestantes, foi o principal sistema filosófico-religioso da História do Brasil. Entre erros e acertos, pecaminosidade e santificação, as três máximas virtudes teologais (Fé, Esperança e Caridade) pregadas pelos clérigos e pelas organizações religiosas de leigos — mormente as irmandades, confrarias etc. —, guiaram os comportamentos e iluminaram os caminhos de milhões e milhões de brasileiros no passado. Não é errado enxergar, portanto, que o IDII se alimenta desse legado na busca de propostas para o Brasil de hoje.

E o símbolo augusto desse Brasil justo, solidário, fraterno e caritativo é D. Isabel de Bragança, que foi princesa imperial e regente do Império, mas também a imperatriz exilada do Brasil na França, para um número considerável de brasileiros. D. Isabel foi a única mulher brasileira que, antes da Presidenta Dilma Rousseff, pôde governar, interinamente, esse extenso território, mas a quem foi negada a oportunidade de se mostrar, talvez, a maior Chefe de Estado de nossa História.

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira
Brasília, 28 de setembro de 2021
150 anos da Lei do Ventre Livre
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