As solenidades comemorativas dos 116 anos da LEI ÁUREA revestiram-se de brilho singular em 2004.

O Baile do Cordão do Bola Preta
Em 12 de Maio (quarta-feira), os Conselheiros Prof. Otto de Sá-Pereira e Prof. Bruno de Cerqueira, acompanhados dos Sócios Dr. Antonio Gameiro e Prof. Alexandre Carneiro de Mendonça, compareceram ao II Baile dos Pretos Velhos e da Princesa Isabel, que se deu no Cordão do Bola Preta, tradicional agremiação sambística carioca, atendendo ao convite da Senhora Presidente da Casa dos Artistas Plásticos Afro-Brasileiros (CAPA), Anna Davies.

Após a encenação de uma valsa dançada por D. Isabel a Redentora (interpretada pela atriz Sandra Barsotti) e André Rebouças (interpretado pelo ator Marquinhos Copacabana), o Prof. Bruno participou a todos os presentes sobre as festas do dia seguinte, convidando a todos que aderissem às comemorações.

A seguir, a Senhora Anna Davies homenageou benfeitores da 3ª idade, tanto pessoas idosas quanto jovens; receberam os Diplomas de Sabedoria Nelson Mandela a Senhora Ana Maria Rebouças; a atriz Senhora Ruth de Souza; a Senhora Silvia Dutra Tinoco, do Apostolado da Oração do Rio; o Dr. Plínio Sales, mecenas de pintores afro-brasileiros; a Senhora Carmen Luz, Diretora do Centro Cultural Municipal José Bonifácio; Pai Santana, Vice-Presidente do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro; o Presidente e o Secretário do IDII; os atores que representaram a valsa e várias outras personalidades do universo cultural afro-brasileiro.

Homenagem à Redentora em seu Monumento no Leme
Na parte da manhã do 13 DE MAIO, fez-se singela homenagem à Redentora em torno de seu monumento no bairro do Leme, zona sul do Rio.

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A Santa Missa
Às 17 horas, teve lugar a tradicional Missa Solene comemorativa, na Igreja da Imperial Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Centro do Rio – mesmo local onde se desenvolveriam os demais eventos do dia.

Celebrou o Ofício S.E.R. o Senhor Abade Emérito de São Bento do Rio de Janeiro, D. Abade José Palmeiro Mendes OSB; co-celebraram SS.Revmas. os Senhores Pe. José Delfino de Araújo (Reitor da Igreja), Mons. João Victoriano Barreto de Alencar, Pe. Eugênio de Souza Monteiro (Vigário de Nossa Senhora da Conceição – Santa Cruz) e Pe. Frei Athaylton Belo OFM (Vigário de São João Batista de Meriti).

Tendo chegado à Igreja como representante oficial de S.E. o Senhor General-de-Exército Manoel Valdevez Castro, Comandante Militar do Leste, o Senhor Capelão do Comando, Tenente-Coronel Pe. Lindenberg Moniz, foi ele também convidado a co-celebrar com D. Abade José, o que muito alegrou a todos.

D. Abade José lembrou em sua homilia do Mistério da Iniqüidade no crepúsculo histórico da Monarquia brasileira em 1889. Após exaltar a fidelidade dos irmãos negros do Rosário e São Benedito à memória da REDENTORA e a correspondente atitude fidalga do atual Chefe da Casa Imperial do Brasil, Príncipe Senhor D. Luiz, de ter conferido o qualificativo de IMPERIAL à Irmandade em 1996, o Abade passou à apreciação da LEI ÁUREA, declarando:

Este é um momento de ação de graças por esta lei tão importante em nossa História e também de recordação deste grande movimento social e popular, que veio corrigir uma grande mancha que existia em nosso país. É também um momento de renovar com maior empenho nossos propósitos de justiça social e de propugnar por justas medidas em pról dos descendentes dos antigos escravos, num clima de harmonia de todas as raças que compõem o povo brasileiro. E não esqueçamos a importância também da necessidade da evangelização e da catequese dos mesmos descendentes dos antigos escravos.

A seguir, D. Abade José referiu-se à longa gesta da Igreja, através do magistério de vários Papas, Santos e Doutores, sempre condenando a escravidão, instituição demasiadamente anti-cristã. Concluindo, Sua Excelência se referiu à triste saga de D. Isabel I a Redentora, mas também ao futuro de esperança do Brasil:

Enfim, um aniversário da Lei que aboliu a escravatura no Brasil é uma ocasião de lembrarmos com gratidão a Princesa Dona Isabel, a justo título cognominada A Redentora – primeira mulher a governar um país do Continente americano – e que agiu fortemente em prol da abolição impelida por seus sentimentos profundamente cristãos. O Pe. Leme Lopes a chamou de A Católica. Curiosa, paradoxal situação, em que não sei se não podemos sentir mesmo, em última análise, a presença do demônio. Louvada e aplaudida por todos em 1888, Dona Isabel foi no ano seguinte deposta e exilada com seu pai, Dom Pedro II e toda a sua família.

Um dos argumentos para a proclamação da república era o perigo de um Terceiro Reinado, tendo à frente uma devota Imperatriz. Esta ficou impedida de dar tudo o que poderia a seu país, inclusive medidas concretas em favor dos antigos escravos. Hoje recordamos com gratidão também quatro grandes abolicionistas: André Rebouças, Senador Dantas, Conselheiro João Alfredo e Joaquim Nabuco, todos vultos exponenciais de nossa História, que vão receber os títulos de Beneméritos do Estado do Rio de Janeiro, que vem de lhes ser concedido pela Assembléia Legislativa do Estado, que irá também homenagear Dona Isabel de Orleans e Bragança, bisneta e homônima da Redentora, com o titulo de Cidadã do Estado do Rio de Janeiro.

Prezados irmãos, não estamos aqui na Igreja da Imperial Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos numa simples comemoração de uma data histórica. Este é um encontro de oração, que envolve a lembrança do passado, a constatação do presente com suas luzes e sombras e a esperança do futuro.Estamos celebrando esta Eucaristia usando o formulário da Missa Pelo Progresso dos Povos, uma das Missas Para Diversas Circunstâncias. Pareceu-me tal formulário muito apropriado. Especialmente a oração da coleta, cuja fonte é a Constituição Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II (n 69). Ela é muito rica de conteúdo e bem expressa nossos sentimentos. Lembramos de início que Deus deu uma só origem a todas as nações e quis congregá-las numa só família. Indiretamente se afirma que todos os homens são iguais, independentemente da raça. E se pertencemos a mesma família, todos somos irmäos. Depois se pede que Deus acenda no coração de todos o ardor da caridade e o sincero desejo de um justo progresso (depois da comunhão vai se pedir um amor puro e operante). Sim, o amor, a caridade é a base para o trabalho ainda necessário visando a plena realização humana e a evangelização dos descendentes dos antigos escravos. Pede-se, enfim, que os bens que Deus concede a todos sirvam à promoção de cada um e, cessada toda discórdia, a equidade e a justiça se firmem na sociedade humana. É todo um programa para nós, católicos, para nós cristãos e também homens de boa vontade visando a realização da justiça social.

Que o Senhor ajude o Brasil, país multirracial, fortaleça a todos nós em nossos bons propósitos de uma sociedade mais justa, fraterna, cristã, onde haja lugar para todos.

Amém.

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